O que é a ‘lenda Momo’ e quais são os riscos que ela representa?

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Ela se chama Momo e sua aparência é aterrorizante: olhos esbugalhados, pele pálida e um sorriso sinistro. Sua imagem ficou famosa pelo WhatsApp, disseminada como um desafio viral. Mas autoridades e especialistas advertem que pode ser algo muito mais sério do que uma simples distração online.

“Tudo começou em um grupo de Facebook onde os participantes eram desafiados a começar a se comunicar com um número desconhecido”, publicou no Twitter a Unidade de Investigação de Delitos Informáticos do Estado de Tabasco, no México.

Professora relata como descobriu que sua filha teve acesso ao boneco assustador enquanto assistia a alguns de seus vídeos favoritos no aplicativo

Por Aline Dini, revista Crescer

O que parecia ser só mais um vídeo de criança brincando com slime, de uma hora para outra, torna-se um verdadeiro filme de terror. Isso porque as imagens fofas são interrompidas pelo assustador personagem Momo, com cenas terríveis que ensinam, passo a passo, como as crianças devem fazer para, literalmente, cortar os pulsos. Esse mesmo vídeo, que burla os algoritmos de segurança até do próprio YouTube Kids, chegou ao conhecimento da  professora e produtora de conteúdo Juliana Tedeschi Hodar, 41, de Campinas (SP), por meio de um grupo de WhatsApp da família

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Mais tarde, quando o casal sentou para conversar com a filha, veio a surpresa: Bianca já havia assistido o vídeo cerca de três vezes e estava muito assustada e amedrontada com o que vira. “Assim que começamos a conversa, ela teve uma crise de choro e não conseguia nem falar. Fomos acalmando-a e então ela contou que já tinha acontecido de ver a Momo. Disse também que estava com muito medo de dormir sozinha, de sonhar com a personagem ou de vê-la saindo de dentro do armário. Foram minutos bem complicados para nós”, conta a mãe.

Para dar mais segurança à filha, Juliana dormiu junto dela, após explicar que todo aquele terror não passava de uma mentira, afinal, a Momo jamais apareceria de verdade para ela. “Pedimos que, se acontecesse novamente, era para ela pausar o vídeo e nos chamar. Como essas imagens aparecem de maneira aleatória, essa seria a forma de denunciarmos o vídeo”, diz. A mãe conta que Bianca sempre foi muito doce, apegada aos pais e carinhosa, por isso, eles não notaram que a necessidade de ficar perto dos pais escondia um motivo maior.

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Embora os vídeos circulem amplamente no WhatsApp, até esta segunda-feira não havia nenhuma evidência concreta de que tenha circulado na plataforma YouTube Kids, como diziam os rumores divulgados por WhatsApp – nem o Ministério Público, nem ONGs de segurança na web nem o próprio YouTube encontraram qualquer indício disso.

O que não significa que não haja motivos para pais se preocuparem: há, de fato, riscos reais em crianças serem expostas a conteúdos amedrontadores, indutores do suicídio e impróprios para sua idade.

Mensagem do Youtube Brasil sobre a boneca Momo.

No entanto, especialistas sugerem aos pais que parem de compartilhar o vídeo com a personagem Momo, mesmo que a intenção por trás disso seja a de alertar amigos. Também recomendam que aproveitem a oportunidade para ensinar navegação segura às crianças (veja dicas abaixo).

“Vários usuários disseram que, se enviassem uma mensagem à Momo do seu celular, a resposta vinha com imagens violentas e agressivas. Aliás, há quem afirme que teve mensagens respondidas com ameaças.”

O fenômeno se estendeu por todo o mundo, da Argentina aos Estados Unidos, França e Alemanha.

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Não está claro o quão disseminado o jogo está no Brasil, mas Rodrigo Nejm, da ONG Safernet, alerta para os riscos. “É mais uma isca usada por criminosos pra roubar dados e extorquir pessoas na internet”, diz.

Nejm diz que sua organização já foi procurada por pais e educadores preocupados com o jogo, mas ainda não recebeu nenhuma denúncia específica.

A BBC News Brasil procurou o Ministério da Justiça e a Polícia Federal para saber se há alguma investigação em andamento ou providência sendo tomada, mas não houve resposta.

A Polícia Nacional da Espanha também fez alertas sobre o assunto, reforçando que “é melhor ignorar desafios absurdos que entram na moda no WhatsApp”.

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A Guarda Civil do país disse no Twitter: “Não entre no ‘Momo’! Se gravar o número na sua agenda, vai aparecer um rosto estranho de mulher. É o mais recente viral de WhatsApp a entrar na moda entre os adolescentes.”

Mas apesar das advertências, ainda há muita confusão. Quem é Momo, de onde saiu e por que temos que prestar atenção nisso?

Afinal, o que é a boneca Momo?

O youtuber ReignBot, que tem mais de 500 mil inscritos em seu canal, publicou um vídeo visto por milhões de pessoas em que explica que é difícil encontrar o usuário de WhatsApp que criou a Momo, mas sabe-se que está vinculado a pelo menos três números de telefone que começam com 81, código do Japão, e dois latino-americanos, um da Colômbia (52) e outro do México (57).

Talvez por isso a Momo tenha ficado especialmente conhecida na América Latina.

Segundo o especialista Rodrigo Nejm, há cada vez mais números se espalhando com a Momo.

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A origem da imagem é japonesa. Pertence a uma escultura de uma mulher-pássaro que foi exposta em 2016 numa galeria de arte em Ginza, um luxuoso distrito de Tóquio, e que fez parte de uma exposição sobre fantasmas e espectros.

As fotos foram tiradas de uma conta do Instagram, explicam as autoridades mexicanas.


Por que tanta gente está falando sobre a Momo agora?

O caso chegou aos trending topics do Twitter no Brasil e ganhou repercussão depois de o relato de uma mãe a um site de notícias viralizar. Na reportagem, ela conta que a filha viu aparições da Momo ao menos três vezes – quando a mãe mostrou o vídeo à criança, a menina ficou muito abalada.

O relato gerou a suspeita de que houvesse “invasões” da Momo em vídeos da plataforma YouTube Kids – voltada para crianças de até 13 anos e com restrições em tese mais rígidas do que as do YouTube tradicional.

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A BBC News Brasil conversou com o Ministério Público da Bahia, com o YouTube e com as ONGs de monitoramento da web Safernet e DimiCuida. Até esta segunda-feira, nenhum deles havia encontrado nenhuma URL que confirmasse a presença do vídeo na plataforma Kids.

“Ao contrário dos relatos apresentados, não recebemos nenhuma evidência recente de vídeos mostrando ou promovendo o desafio Momo no YouTube Kids. Conteúdo desse tipo violaria nossas políticas e seria removido imediatamente”, afirmou o YouTube em nota.

A plataforma não esclareceu, porém, detalhes da política de segurança para quem tenta subir vídeos na plataforma Kids.

“Pode ser também que tenha havido algum vídeo que já tenha sido tirado do ar (da plataforma) após denúncias. O que vemos é que esse tipo de conteúdo não vem de uma fonte única, já que essas plataformas são abertas para todos (publicarem)”, diz à BBC News Brasil Fabiana Vasconcellos, psicóloga da ONG cearense DimiCuida, de prevenção a jogos de asfixia online e monitoramento de conteúdo impróprio para crianças.

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A BBC News Brasil também monitorou grupos de discussão nas redes sociais nesta segunda-feira e, até o momento, só encontrou versões do vídeo circulando no WhatsApp. Qualquer pessoa que veja conteúdo do tipo em plataformas deve denunciá-lo imediatamente, para que seja removido.

Nossas crianças em perigo, como protege-las?

Vasconcellos, da DimiCuida, sugere que pais usem aplicativos de monitoramento do acesso online de crianças ou usem o YouTube em versões como a Go, que permite baixar offline apenas vídeos que tenham sido pré-aprovados para as crianças menores. E também restringirem, nas configurações, o acesso de crianças a determinados canais, impedindo que elas recebam notificações de vídeos que talvez não sejam apropriados.

“É preciso, também, limitar o tempo de tela”, sugere ela. “A criança precisa de equilíbrio por se tratar de uma atividade passiva, que ela pode não conseguir processar se for em grandes quantidades ou não apropriada a sua faixa etária.”

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Acima de tudo, especialistas sugerem que pais interrompam a circulação dos vídeos, ou seja, parem de compartilhá-los.

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